Julia Roberts fala sobre Clooney, Pitt e sua vida em família

Capa de dezembro da ESTILO, a atriz, de 50 anos, questiona por que todo mundo ainda a pergunta sobre sua idade e conta como concilia a fama com a família.

O ano era 2001 e Julia Roberts estava nos últimos dias de filmagem de Os Queridinhos da América. Eu estava no set, todo empolgado, para entrevistá-la para a revista Time. Sua agente, Marcy Engelman, nos apresentou no trailer de Julia. “Nós já nos vimos antes”, disse a atriz. Eu assegurei que não (afinal, encontrar essa mulher não é o tipo de coisa que você esqueceria). Mas ela insistiu que eu parecia familiar. Então, sugeri que talvez ela tivesse me visto na TV. Percebendo em seguida como o comentário deveria parecer sem noção, ela me deu uma olhada e respondeu: “Isso soa a algo que George Clooney diria”. Foi aí que me apaixonei por Julia Roberts.

Depois de 16 anos, estamos outra vez num trailer, agora num rancho não muito longe da casa que Julia tem em Malibu. É um dia de calor escaldante no outono, por isso, ela está fazendo um intervalo durante a sessão de fotos para a nossa capa com o ar-condicionado na potência máxima. Seu filho Phinnaeus (Finn) – um ruivo de 12 anos, educado, sagaz e divertido – está por aqui também. Como estava meio indisposto, Julia o trouxe para que tirasse uma soneca sob sua supervisão. Quando pergunto a ela qual dica daria para ter uma aparência incrível e se sentir ótima, Finn se aproxima e sussurra em sua orelha. Ela olha para ele. “Dar à luz um ruivo?”, pergunta. Ele ri e assente, e mamãe responde à questão: “Casar com a pessoa certa, dar à luz um ruivo e ter grande amigas. Essas seriam as três chaves para a felicidade”.

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Muita coisa mudou para a atriz nos últimos 16 anos. Na primeira vez que nos encontramos, ela tinha acabado de ganhar o Oscar por Erin Brockovich – Uma Mulher de Talento. Hoje, Julia está mais focada no papel de soccer mom (a expressão “mãe do futebol” é usada para definir as mulheres que levam os filhos para lá e para cá, a treinos esportivos e outras atividades). Ela é boa nisso e frequenta as apresentações todo final de semana.

Nosso encontro foi um pouco antes de a atriz completar 50 anos. Ela é entusiástica sobre esse assunto. “Sempre amei fazer aniversário”, diz. Julia planejava celebrar a data “com braços abertos e muita gratidão” e foi taxativa ao dizer que não há nada de diferente nesse aniversário em relação aos outros – a reação é, em parte, por causa dos repórteres que a abordavam a respeito da aproximação da data (28 de outubro) como se fosse uma tragédia. “Sério, gente?”, diz ela. “Ainda estamos nessa? Alguém pergunta a George Clooney ou Brad Pitt sobre a idade deles?”

Ainda assim, este foi um ano cheio de marcos para a estrela. No verão passado, Julia e seu marido, o cinegrafista Danny Moder, celebraram 15 anos de casamento. O filho caçula, Henry, completou 10 em junho e ganhou uma partida de futebol em casa. Em novembro, os gêmeos Hazel e Finn fizeram 13 anos. Ver os filhos virando adolescentes tem um gostinho agridoce. “Todos os clichês são verdadeiros”, diz ela. “Estou tão orgulhosa dos três, mas também…” Sua voz some por um instante. “Outra noite, tentei carregar um deles para a cama e me surprendi ao ver que não era mais possível. Tive que acordá-lo porque não conseguiria subir as escadas.”

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Também foi um ano de marcos no trabalho. Julia acabou de assinar um contrato para produzir e estrelar uma série de TV pela primeira vez – o thriller psicológico Homecoming, da Amazon, baseado em um aclamado podcast homônimo. As gravações estão previstas para começar no início do ano que vem. Como muitas outras estrelas de cinema, Julia acredita que as séries e suas várias plataformas viraram o veículo mais empolgante da indústria do entretenimento: “Não quero ir contra a minha turma, mas é meio isso. Há um monte de conteúdo bom e muita diversidade”. Por enquanto, ela considera o projeto um experimento: “Nem sei o que isso exige. Só assisto programas de TV. Não sei fazer um”.

Depois de ficar mais de um ano afastada do cinema, Julia – que também é o rosto da Lancôme – estrela um novo filme, Extraordinário, que entra em cartaz nos cimenas brasileiros este mês. No longa, baseado no best-seller infanto-juvenil de R. J. Palacio, a atriz intepreta Isabel, a mãe de um garotinho (Jacob Tremblay, de O Quarto de Jack) com uma grave deformidade facial. Isabel – que fica dividida entre proteger seu filho ou soltá-lo no mundo e equilibrar suas próprias necessidades como artista e as necessidades de sua família – é um reflexo revelador de quem Julia é nesse momento. Indagada sobre como se sente a respeito de sua vida, ela resume: “Não há uma forma de descrever que não soe piegas ou ridículo, porque tudo o que vem à minha mente termina com um ponto de exclamação. E o fato é que nós temos esses três seres humanos que são um completo reflexo da afeição que temos um pelo outro”. Ela conta que há pouco Hazel cortou o cabelo e doou os fios a uma organização que faz perucas para crianças com câncer. “É uma decisão e tanto para uma garota que tem um cabelo loiro ondulado, que todo mundo elogia”, diz Julia. “Mas ela é tão boa e corajosa. Ela vê tudo isso como outra coisa.”

A criação da própria Julia, na cidade norte-americana de Smyrna, Geórgia, costuma ser descrita como difícil. Seus pais (que comandavam uma companhia de teatro) se divorciaram quando a atriz tinha 4 anos. Aos 10, ela perdeu o pai, morto em decorrência de um câncer. Os laços com a mãe, Betty, e a irmã mais velha, Lisa, eram fortes. “Minha irmã e eu costumávamos entrar em lutas de empurrar e derrubar, batendo uma na outra”, ela recorda, rindo. “E era assim: ‘Ok, não vale puxar o cabelo, não pode arranhar…’ A gente inventava tantas restrições que, no final, ninguém podia fazer nada e acabava desse jeito.” O irmão, Eric, 11 anos mais velho que Julia, já não brincava com elas. Finn, novamente acordado e ouvindo a entrevista da mãe, sussurra em sua orelha. “Essa não é uma história divertida”, ela fala para o filho. Mas a compartilha de qualquer forma: “Eric segurava a gente no chão e cuspia na nossa cara, mas antes de a saliva cair ele sugava de volta. E ele não conseguia sugar a tempo sempre. Houve anos na minha vida em que tudo o que me ouviam dizer era ‘papai!’, e ele vinha e pegava Eric pelo cangote”. Depois do ensino secundário, a caçula foi atrás de Lisa e Eric em Nova York. Lá, entre um teste e outro, fazia bicos. De todos os funcionários da loja de equipamentos esportivos Athlete’s Foot, no Upper West Side, Julia era quem amarrava cadarços mais depressa. Quando surgiu o teste para Três Mulheres, Três Amores (1988), a aspirante a atriz trabalhava para a marca de roupas femininas Ann Taylor, na região de South Street Seaport. Durante o processo de seleção, foi aconselhada a tingir sua vasta cabeleira loura e encaracolada de castanho-escuro. Seguiu a orientação usando um frasco inteiro de tintura em musse. “Ficou tão marrom, duro e encaracolado, e eu tinha um teste com Adam Storke (que depois seria seu par romântico no filme). Eu estava tão constrangida com o cabelo duro. Quando ele o tocava, os dedos iam ficando pretos.” Ainda assim, Julia conseguiu o emprego. Flores de Aço, Uma Linda Mulher, Linha Mortal e o megaestrelato vieram na sequência.

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Hoje faz quase três décadas que acompanhar revelações sobre a vida de Julia Roberts se tornou uma espécie de passatempo mundial. Ela, no entanto, evita ler coisas sobre si mesma. “Eu acredito que não preciso saber de todo bizarro, maldoso e falso boato de tabloide. Que só me alimento de pipoca ou que meu marido não me ama a não ser que eu vista azul.” Julia conta que suas idas ao mercado costumam ser tranquilas, mas vez ou outra ela se depara com situações esdrúxulas. “Estou lá esperando, dando uma olhada em volta e, ao ver uma manchete sobre mim mesma, viro para o homem atrás de mim e solto: ‘Não é verdade, senhor!’.”

Em algum momento de sua trajetória, Julia aprendeu que o melhor a fazer é ignorar a fama e as opiniões alheias. Consegue ser bem-sucedida na arte de ter uma vida normal, jogando mahjong com as amigas e jantando com a família todas as noites. “Eu amo cozinhar”, diz. “Uma das coisas que adoro sobre o Dia de Ação de Graças é que você pode passar hora e horas cozinhando. Você não é obrigada a fazer mais nada. Acho que peguei isso da minha mãe.”

Betty morreu em 2015, depois de uma batalha contra o câncer, e Julia ainda está se recuperando. Esse acontecimento e as mortes de dois amigos próximos e mentores, os diretores Mike Nichols (em 2014), de Closer, e Garry Marshal (no ano passado), de Uma Linda Mulher, fizeram Julia se focar cada vez mais no amor e nas relações verdadeiras.

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A mãe continua a ser uma presença constante em sua vida. Inspirada pelos talentos manuais de Betty, ela dá aos amigos e à família presentes de Natal feitos por ela mesma. Uma vez, distribuiu potes vintage recheados de cookies caseiros. “Teve um ano em que fiz bordados. Bandeja bordada, peso de porta bordado. Soa como algo que você gostaria de ganhar? Um peso de porta bordado?” Finn entra na conversa mais uma vez: “A gente tem um peso de porta bordado”. Julia sorri e diz para o filho: “Temos mesmo. Um que a vovó vez”.

Quando a matriarca estava morrendo, a família permaneceu bem unida. “Nós ficamos com ela todos os minutos até o final, juntos, e tendo essa experiência insanamente gratificante”, recorda. “A perspectiva dos meus filhos foi enriquecedora para mim. Eu tinha a idade deles quando meu pai morreu. A morte era tão misteriosa, esquisita e amedrontadora. O assunto era tratado de um jeito estranho naquela época. Eu queria que eles tivessem uma experiência oposta e Danny foi muito solidário nesse momento.”

Mais para o fim do dia, Hazel chega da escola (Henry está no treino de futebol) e encontra a mãe sentada na cadeira de maquiagem, enquanto o cabeleireiro Serge Normant, amigo de longa data de Julia, prepara a estrela para a última foto do shooting. “Acredita que é isso o que eu chamo de trabalho?”, fala a atriz para a filha, que ri. Indagada sobre como deve ser o dia ideal da família, Julia responde: “Eu diria que os dias ideais são todos os em que estamos juntos”. Como Danny está fora, trabalhando num filme, ela completa: “Por isso, a única coisa em falta hoje é meu marido. Ele vai estar de volta em algumas semanas”. E, acrescenta Finn, “futebol todos os dias também faz tudo ficar muito bom”. “E futebol todos os dias!”, confirma Julia com sua gargalhada famosa. “Todos os caminhos levam de volta a Danny. E ao futebol.”

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